quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Artigo: Terapia Familiar Sistêmica

O advento da Terapia Familiar foi marcado pela interdiciplinariedade, iniciando-se nos anos 40 . O pensamento sistêmico(1) proposto por von Bertalanffy, casado com a cibernética(2), originária das idéias de Wiener, derivou-se de campos distantes da psicoterapia e até mesmo da psicologia. Enquanto a teoria geral dos sistemas propunha-se a estudar as correspondências ou isomorfismos entre os sistemas de todo o tipo, a cibernética ocupava-se dos processos de comunicação e controle nestes sistemas.

A aplicação deste pensamento à prática psicoterápica teve como perspectiva central o olhar do antropólogo Gregory Bateson que transforma o conceito de informação(3) para as praticas relacionais e circulares ao dizer que o “observado tem a marca de quem observa” , do psiquiatra Don Jackson que supervisionou o projeto de comunicação(4) desenvolvido por Bateson e foi o primeiro a utilizar o termo homeostasia familiar , e da assistente social Virginia Satir que trabalhava com crianças e famílias(5).

Os primeiros trabalhos em terapia familiar iniciaram-se com famílias de esquizofrênicos na década de 50 e basearam-se na teoria da comunicação(6) elaborada com base nas pesquisas de Weakland, D.Jackson, G. Bateson e Jay Haley.

Embora a teoria geral dos sistemas, em parceria com a cibernética, tenha configurado os limites dos paradigmas para uma teoria clinica de psicoterapia, na prática diferentes sistemas de crenças resultaram em distintos modelos de terapia familiar, caracterizando diversos sistemas de inteligibilidade que, praticamente coexistiram(7).

Os diferentes modelos desde o principio de sua evolução até a década de 70, que coexistiram foram:

- Comunicacional - Bateson, Haley, Satir e Jackson

- Interacional, ou Terapia Estratégica Breve – desenvolvido em Palo Alto no Mental Institute Research

- Estrutural - Minuchin

- Estratégico – Haley e Madanes

- Experiencial Simbólico – Whitaker

- Intergeracional – Bowen e Borzomeny-Nagy

- Sistêmico de Milão – Selvini-Palazzoli, Prata, Checcin e Boscolo

Os modelos com suas distintas maneiras de definir o que vem a ser o problema, a teoria da mudança e a prática psicoterapêutica preocuparam os estudiosos do campo da terapia familiar quanto a precisão conceitual que então, consideraram as práticas da terapia familiar como sistêmicas e a epistemologia como cibernética(8).


O terapeuta familiar na pós-modernidade

As contribuições de uma epistemologia sistêmico-cibernética(9) para a prática da psicoterapia implicaram, primeiro na mudança paradigmática que enfatizou a importância do contexto para a compreensão dos problemas do ser-humano, que esta em inter-relação com o outro. Segundo, na organização da prática em torno do conceito de causalidade circular e não mais linear, de causa e efeito, portanto entende-se que os seres vivos organizam seus comportamentos dentro de uma trama de relações. Terceiro que isto implica a noção de observador-participante, o que diferencia as terapias familiares quanto a Cibernética de Primeira Ordem e de Segunda Ordem.

Se pelo aspecto teórico a terapia familiar permitiu muitas contribuições, no âmbito das práticas gerou um novo olhar sobre o terapeuta dismistificando-o como expert, que passou a assumir um papel de facilitador, cujo conhecimento, como qualquer outro conhecimento esta livre de um status previligiado e, é auto-referêncial.

A escuta feita pelo terapeuta pressupõe sua formação teórica e prática e sua bagagem transportada por sua própria história de vida, isto implica na formação como especialista em terapia familiar e de casal e na vivência da terapia individual, supervisão e consultoria clínica. Elkain, partindo da auto-referência propõe o conceito de ressonâncias(10) que indica uma intersecção entre as histórias de vida pessoal do terapeuta e da família ou dos clientes atendidos.

A terapia propõe que o cliente seja o especialista no que diz respeito ao conteúdo, isto quer dizer que ele sabe sobre suas própria vida e dos motivos que o trouxeram para a terapia, enquanto que o terapeuta é o especialista no processo, permitindo por sua especialidade criar um contexto propiciador e facilitador para uma conversação que permita a reconstrução dos significados da história de vida do cliente(11).

Neste sentido também o sistema terapêutico, passa da família para ser definido como aqueles que estão envolvidos em conversação em torno de um problema. Estes sistemas não são determinados por sua estrutura ou seu papel social, mas por uma dinâmica relacional que se organiza em torno dos significados compartilhados, nos quais estão os problemas que levam as pessoas a buscarem terapia.

Tal concepção em primeiro plano coloca ênfase sobre a linguagem e a pessoa do terapeuta, e segundo estende o território da terapia sistêmica, originalmente uma terapia de família como um sistema, para além das fronteiras, ao incluir o indivíduo, as comunidades e outras organizações sociais, envolvidos numa trama significativa.

Grandesso diz que estamos “apoiados em torno dos princípios de imprevisibilidade e incerteza, da impossibilidade de um conhecimento objetivo, da auto-referência, da linguagem da autopoiese, o campo da terapia sistêmica organizou-se nas chamadas terapias sistêmicas construtivistas, construcionistas sociais, desenvolvidas nos modelos conhecidos como conversacionais, dialógicos ou narrativos. Em comum pode-se destacar que todas questionam os modelos diagnósticos tradicionais, as teorias clínicas e teorias de mudança, tradicionalmente centradas nos modelos apriorísticos de disfuncionalidades e patologias, ou de funcionamento saudável.”

O que é a terapia familiar e para quem servem as terapias familiares?

Embora não se possa deixar considerar a interdiciplinariedade da terapia familiar e a diversidade de modelos de atuação nesta área acredita-se que a compreensão sobre o que se entende por família e sistema é fundamental para a discussão sobre a atuação clínica da terapia familiar.

A terapia sistêmica da família organizou-se em torno de alguns conceitos básicos, definidores de sistemas:

- Globalidade - um todo coeso é como se comporta um sistema, o que implica que a mudança de uma parte altera todas as outras partes e o sistema como um todo

- Não-somatividade - um sistema não pode ser considerado como a soma de suas partes

- Homeostase - processo de auto-regulação que mantém a estabilidade do sistema

- Morfogênese - capacidade do sistema em absorver inputs do meio e mudar sua organização (sistemas abertos)

- Circularidade - a relação entre quaisquer dos elementos do sistema é bilateral, o que pressupõe uma interação que manifesta-se como sequência circular

- Retroalimentação - garante o funcionamento circular pelo mecanismo de circulação da informação entre os componentes do sistema por princípio de feedback (negativo funciona para manutenção da homeostasia e o positivo que responde pela mudança sistêmica)

- Equifinalidade – independentemente de qual for o ponto de partida, um sistema aberto apresenta uma organização que garante os resultados de seu funcionamento

A terapia familiar sistêmica estruturada em torno desses conceitos entende a família como um sistema aberto que se auto-governa através de regras que definem o padrão de comunicação mantendo uma interdependência entre os membros e com o meio no que diz respeito a troca de informações e usa de recursos de retroalimentação para manter o grau de equilíbrio em torno das transações entre os membros.

O aspecto fundamental é a de que o ser “doente” ou a pessoa que apresenta problemas, é apenas um representante circunstancial de alguma disfunção no sistema familiar. Enquanto o modelo tradicional de práticas psicoterapeuticas diria que o transtorno mental se manifesta pela força dos conflitos internos ou intra-psiquícos, tendo sua origem no próprio indivíduo, o modelo sistêmico daria ênfase a tal transtorno como expressão de padrões inadequados de interações familiares.

Assim sendo considera-se relevante priorizar o trabalho direto e efetivo com as necessidades da família e do meio ambiente, sendo que esta família é definida pelos seus padrões de interação, em detrimento de rebuscar somente os dificuldades de ordem intra-psíquica individuais.

A Terapia Familiar/Casal não é recomendada para qualquer caso, porém tem indicação clara para certas situações(12):

· problemas com várias pessoas da mesma família

· problemas evidentes de relacionamentos entre pais

· violência, alcoolismo, drogadição, distúrbio psíquico, luto patológico entre outros.

Na terapia são consideradas todas as informações levando em conta até três gerações da família envolvidas no tratamento o que caracteriza mais do que um trabalho de remediação às possibilidades preventivas, quando se pensa numa mudança de Segunda Ordem, que implica na transformação dos padrões de transacionais que constituem a estrutura familiar(13) . A mudança terapêutica é decorrente da ampliação de possibilidades de experiências vividas pela família nos diferentes contextos. Em contrapartida ao conceito de mudança próprio das terapias familiares da cibernética do primeiro período está o conceito de reconstrução enfatizado pelos terapeutas que trabalham na perspectiva das (re)construções de narrativas.

O tratamento possibilita que mais de uma pessoa seja atendida por um profissional ou uma equipe de profissionais que compartilham da mesma visão de homem e de mundo permitindo o vínculo e a linguagem comum com todos os membros da família, possibilitando uma re-construção dos significados que giram em torno do problema.

A criança como consultora ou co-terapeuta na Terapia Familiar

O terapeuta familiar nem sempre trabalha só, pode estar com um colega (co-terapeuta) ou uma equipe de profissionais, mas ainda assim pode ter a criança como sua principal aliada de trabalho.

O atendimento de famílias com crianças geralmente parte de alguma dificuldade observada pelos pais em seus filhos com relação a problemas escolares, psicomotores ou de relacionamento intra e extra familiar. É comum que os pais tragam seus filhos para que a terapia seja realizada somente com eles. A fala dos pais é “meu filho tem o problema” ou então “ele é o problema, nós não sabemos mais o que fazer”.

Curiosamente é a criança que pode ser consultora ou co-terapeuta do terapeuta familiar no atendimento, sendo sua ajuda solicitada para que juntos, terapeuta e criança possam ajudar os pais. Imediatamente dissolve-se o foco da criança como problema, o “Bode expiatório”. Primeiro promove-se a busca de recursos na própria criança fazendo que ela sinta-se capaz, o que faz com que os pais não vejam-na somente como frágil e problemática, mas como gestora de recursos promotores de mudanças e também envolve os pais como participativos no processo de tratamento daquela família. Valorizando a competência da criança indiretamente o terapeuta também cumprimenta os pais que criaram-na tão bem.

É muito freqüente que as crianças escolham os sintomas de acordo com o que elas queiram afetar profundamente. Assim foi o que Marcos fez (nome fictício).

Em fase de separação conjugal Marta e João procuram a terapia de casal preocupados com as conseqüências deste rompimento sobre seus filhos. Marcos estava indo mal na escola. Numa entrevista realizada com a coordenadora da escola soubera que, não passaria do pré para primeira série do ensino fundamental, recusava-se a participar do “mundo letrado”, isto é do “mundo dos adultos”. Não era para menos vivendo no meio de tantas brigas entre seus pais, para ele o melhor era continuar “brincando” e não lendo ou escrevendo.

Foram realizadas sessões com diversos sub-sistemas da família.

1ª) Entre Marcos e sua irmã, configurando o sub-sistema fraterno, nas quais foram trabalhados os aspectos de rivalidade e apego, isto é, o quanto esses irmãos poderiam ajudar-se nesta fase de reorganização familiar diante da separação de seus pais.

2ª) com a mãe, Marcos e a irmã, com intuito de fortalecimento do vínculo entre Marcos e sua mãe, visto que esta permitiu a guarda das crianças ao pai.

3ª) com os avós paternos de Marcos e seu pai. Na medida que o pai de Marcos pode conversar com seu pai sobre o quanto se sentira desqualificado na infância, reconstrói o significado de sua relação também com seu filho e deixa de agredi-lo fisicamente como também chamá-lo de “burro”.

4ª) com avós maternos de Marcos e sua mãe. A mãe, filha de pais separados também, consegue resignificar aquilo que entendeu como abandono vivido na infância na relação com sua própria mãe e retoma a guarda do filho. Durante as sessões a mãe de Marcos sentia-se deprimida e ele preocupava-se com ela que havia ficado só após a separação, pois ele e a irmã foram morar com o pai e a nova esposa dele.

5ª) com família substituta de Marcos , agora composta pela irmã, o pai e a madrasta. Foi extremamente importante a sessão que configurou-se como ritual de uma outra família que se construía simultaneamente com a entrada da nova esposa do pai. Fez-se necessário redefinir papéis e tarefas de cada membro da família, o que permitiu um lugar de maior prestígio para Marcos que também ganhará mais um irmão o filho da esposa de seu pai, e este passou a ser seu colega de quarto. Assim nem todos os “fracassos” recaiam sobre ele.

6ª) com os tios por parte de pai, foi uma sessão na qual se redefiniram os papéis, pois estes tios exerciam funções paternas, e assim tanto o pai quanto a mãe sentiam-se menos valorizados diante de Marcos, que embora tomasse o tio “como pai afetivo”, na medida que o fazia mais impedia a possibilidade de ter uma relação feliz com seu pai, isto quer dizer que nos finais de semana passou a viajar com o pai, a montar cavalo e brincar com ele e não somente com o tio como fazia antes da separação de seus pais. A tia deixou de fazer as lições de casa dele, fazendo com que ele pudesse sentir-se mais valorizado por conseguir realizar suas obrigações sem auxílio, ou quando este era necessário passou a solicitar sua mãe ficando mais próximo dela, podendo cuidar e ser cuidado.

Assim Marcos foi deixando de ser o problema e ajudando seus pais e as três gerações de sua família.

Este caso ilustra o quanto nós como profissionais da saúde devemos estar atentos ao que nos comunicam as crianças. Será que valeria a pena Marcos repetir de ano, por dificuldades que não eram só dele? Esta história tem um final feliz se assim podemos dizer, Marcos vai para a primeira série do ensino fundamental e redistribuí o lugar para que cada membro de sua família possa crescer e sentir-se feliz. Este trabalho durou um ano e meio, e ainda hoje lembro-me dos olhos azuis de menino sofrido que passaram a brilhar.

Adriana Carbone
Revista Catharsis

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